Incineração? Temos o direito a decidir!

A Associação de Municípios da Ilha de São Miguel (AMISM) pretende alterar a forma como são tratados os resíduos sólidos urbanos na ilha de São Miguel. Esta decisão peca por tardia pois há muito que se sabe que o tempo útil de vida do actual aterro sanitário é curto e está prestes a terminar. Mas ainda mais relevante é o facto da colocação de todos os resíduos indiferenciados (que contêm resíduos orgânicos mas também plásticos, metais, vidro e papel) directamente em aterro, sem qualquer triagem e separação prévias, é ambientalmente e economicamente insustentável. Seria então de esperar que a AMISM e os municípios que a compõem apostassem cada vez mais na sensibilização dos munícipes para a separação do lixo nas suas casas, na universalização da recolha selectiva porta-a-porta eventualmente acompanhada de uma redução progressiva da frequência de recolha porta-a-porta dos resíduos indiferenciados. A realidade é que a recolha selectiva porta-a-porta está longe de estar a 100% em todos os concelhos, o que desincentiva a separação dos resíduos por parte dos cidadãos que a querem fazer. Assim castiga-se quem quer ter a atitude ambientalmente e economicamente inteligente de separar os resíduos, obrigando estes a deslocarem-se aos ecopontos para os depositar, e beneficia-se quem não faz separação, recolhendo mais frequentemente porta-a-porta os resíduos indiferenciados.
A par deste desincentivo à separação dos resíduos na origem, a AMISM, talvez apenas porque a contagem decrescente do tempo de vida do aterro sanitário está a terminar, decidiu tentar solucionar o problema dos resíduos da forma mais desactualizada e desaconselhada por organizações ambientalistas em todo o mundo e pela ONU na convenção de Estocolmo: Incineração de resíduos (eufemisticamente apelidade
de “valorização energética”). Esta opção irá custar, só em São Miguel, 65 ME, o que é muito dinheiro em qualquer lugar. A AMISM prevê que serão incinerados Resíduos Sólidos Urbanos, resíduos industriais, mas também, imagine-se, biomassa florestal, segundo informação disponível no website da AMISM[1]. Atendendo-se às declarações de Ricardo Rodrigues, presidente da AMISM, em Julho deste ano que afirma que serão exportados apenas os resíduos “indispensáveis” e valorizados os que puderem ser valorizados [2] ficamos com a nítida percepção que esta máquina imparável será alimentada com quase todos os resíduos que serão produzidos na ilha, incluindo orgânicos e recicláveis, deixando-se cair a reciclagem e desperdiçando todo o trabalho até aqui feito para incentivar a separação dos resíduos em casa, o esforço dos municípios para a recolha selectiva e o esforço de todos aqueles que em suas casas optam por fazer separação.
É portanto uma incógnita como será cumprida a meta europeia de reciclar 50% dos resíduos até 2020. Ainda estamos longe e mais longe ficaremos se até biomassa florestal querem queimar. É essencial, portanto, perguntar que alternativas à incineração foram estudadas e porque razão esta foi escolhida. Para além dos problemas já mencionados, a incineração é fonte de poluentes altamente tóxicos que põem em causa a saúde pública e requer a construção de um aterro para resíduos perigosos, que são o produto final do processo de incineração. Existem alternativas, como as centrais de Tratamento Mecânico e Biológico, defendidas pela QUERCUS e já utilizadas em Portugal pela Valnor para uma população de 279.000 pessoas.
Existem argumentos a favor e contra qualquer das soluções que possam ser apresentadas mas a decisão, em Democracia, tem de ser de todos nós. É por isso que é necessário promover o debate, esclarecer a população e deixar que esta decida em consciência. Correm rios de tinta sobre companhias aéreas low cost e construção de navios de transporte de passageiros mas são raras as páginas publicadas sobre este tema. É por isso que as propostas de Referendo Local nos concelhos de Ponta Delgada e Ribeira Grande apresentadas pelo BE/Açores são a oportunidade para um debate sério e esclarecedor sobre uma decisão que iremos, nós e os nossos filhos, suportar por várias décadas. Uma decisão com este peso não pode ser apresentada pela AMISM, com a conivência do Governo Regional, como sendo irreversível e incontestável, aproveitando-se da falta de informação e da pouca vontade de tocar no assunto de quase todas as forças políticas dos Açores e sem sequer ter sido proposta aos munícipes pelos candidatos às câmaras municipais durante as respectivas campanhas eleitorais. É por isso tempo de dar a palavra à população!

[1]http://www.amism.pt/ECOPARQUE.aspx
[2]http://www.correiodosacores.info/index.php/destaques-esquerda/8054-queima-de-lixos-menos-polemica

Consensos ou escolhas

Desde há algum tempo a esta parte uma das palavras que mais se ouve na política portuguesa é “consenso”. A escolha de palavras encerra nela própria um significado que importa descortinar. “Consenso”, neste contexto, significa unanimidade, ou quase, em torno de algo. Interessante é verificar que a expressão “procurar consensos” é actualmente utilizada pelos partidos do governo, pelo PS e pelo mais acérrimo defensor do “consenso”, Cavaco Silva, normalmente sem se especificar em torno de que assunto(s) deve existir o tal “consenso”. A ausência de um assunto em torno do qual esse consenso é tido como essencial pode significar uma de duas coisas: ou é um discurso oco destinado apenas a passar a ideia de que esses partidos estão a procurar entender-se para, alegadamente, resolverem os problemas do país, o que poderá ser uma reacção à ideia populista de que a discussão e discordância interpartidária são causas da decadência da democracia e por isso um mal a combater; ou que o consenso deve ser atingido em todos os assuntos decisivos para o futuro d@s portugues@s.

Qualquer uma das teses é preocupante e perigosa para a democracia, para a procura de alternativas e para a capacidade de decidir, de fazer escolhas, de não desistir, para o inconformismo, que é essencial à democracia e ao avanço da sociedade. A primeira tese, de que a insistência num consenso é uma resposta mal amanhada ao descontentamento com a política poderia ser, teoricamente, válida, não tivesse a realidade já demonstrado que a segunda explica muito melhor a obsessão pelo consenso.

Na verdade, o anúncio de um “consenso” entre PS, PSD e CDS seria apenas a admissão de que todo o centro político português, naquilo que interessa, está de acordo. Aliás, há muito tempo que chegaram a um consenso muito alargado ao longo das últimas décadas e, principalmente, nos últimos anos.Vejamos: chegaram a um consenso sobre o Tratado Orçamental, que impõe a austeridade como instrumento para o retrocesso social e económico; chegaram a consenso sobre a entrega de sectores estratégicos a privados que depois lucram com estes, subindo os preços de bens e serviços essenciais; chegaram a consensos sobre a liberalização e precarização do mercado de trabalho, dando toda a liberdade aos patrões para despedir e abusar cada vez mais da força de trabalho de quem não tem outra forma de subsistência; chegaram a consenso sobre cortar salários e pensões; chegaram a consenso sobre a necessidade imperiosa da austeridade (embora o PS diga que a prefere mais light e prolongada), laçando centenas de milhar no desemprego e obrigando tanta gente à emigração forçada. E poderíamos continuar nisto por muito tempo.

Quem está na oposição, neste caso o PS, tem mais dificuldade em admitir esse consenso porque quer regressar ao poder. Admitir que em nada difere de quem está no poder inviabilizará o seu regresso ao governo. Quem está no governo, PSD e CDS, quer admitir o consenso pois dessa forma desmascara o PS, revelando a coincidência dos seus programas.

A democracia vive da construção de alternativas e de escolhas e não de consensos. Hoje a construção da alternativa não está no arco dos consensos mas na rejeição da austeridade em todas as suas facetas (incluindo o Tratado Orçamental), está na concentração de esforços na criação de emprego, na renegociação da dívida em favor do devedor, na defesa e reconstrução dos serviços públicos, no controlo popular e democrático dos sectores estratégicos do país, procurando também, ao nível europeu, alianças para esta política alternativa.

Este é um tempo de escolhas.

 

Também publicado no site do BE/Açores.

Hosting my owncloud

Recently I decided to reduce the amount of information I store in cloud services such as Dropbox, using them only when absolutely necessary. Why? Very shortly: privacy, security, preference for FOSS (free and open-source software).

I choose Owncloud as an alternative to file syncing and file redundancy since backups are always a bit late and scarcely frequent around here…

One of the issues I had with having a file server running Ownclound was the electrical bill which would go up a little with a computer always on. Fortunately  I have an old laptop WOL (Wake On LAN) enabled that I decided to use as a server. This allows me to turn on the server on when I want to access my files by sending by sending a magic packet. This way I can leave the server off most of the time: at night or when I’m at work.

As for the technical details of the installation they are quite well detailed in these two sites:

I followed this guide to install and configure Owncloud on a Debian 7 server. The server already had MySQL, Apache and PHP installed and the rest was pretty straight forward. The only distinct configuration I used was the Data Folder. Instead of using the default one I created a dedicated folder in the home partition for Owncloud. The web server user (www-data in Debian) as to be given write access to the folder and one needs to create a empty file called .ocdata in the folder root.

As for the WOL configuration I followed this guide, which worked flawlessly.

There’s even a pretty neat multi-platform desktop client but you can access your data through http and webdav. Since the first time I tried Owncloud it has come a long way. Let’s see how it is on a regular usage and how it’s compared to more mature but closed solutions as Dropbox or Google Drive.

Livro – “Os Despojados” de Ursula K. Le Guin

Há vários tipos de livros: livros que entretêm, livros de que gostamos, livros que divertem,  livros que marcam. Em diferentes fases da vida tive, talvez, 3 livros que me marcaram por várias razões. “Os Despojados” (The Dispossessed), de Ursula K. Le Guin (da saga Hainish Cycle), será provavelmente um destes livros (a prova do tempo confirmará ou não essa minha convicção).

Após ter, há pouco tempo, lido um livro sobre uma utopia (distopia?) futurista,Kirinyaga de Mike Resnick, resolvi procurar mais bons exemplos do género, em que a ficção científica se mistura com temas como a filosofia e a política. “Os Despojados” pareceram-me uma boa continuidade.  O primeiro terço do livro é penoso de se ler, facto que terá sido agravado por o ter lido na sua versão original, em inglês. A escrita da autora não é fácil, e o vocabulário é, por vezes, pouco comum. Para além disso, a autora opta por não nos explicar muito sobre o mundo sobre o qual escreve, sobre os personagens e os acontecimentos, apenas à medida que a história lentamente se desenrola começamos a ser elucidados. Se formos leitores persistentes, as restantes páginas do livro são um presente para a mente.

“Os Despojados”, apesar do rótulo de ficção científica, é um livro que trata de utopia, subversão, anarquia, revolução. O que mais me cativou foi a vivência de uma sociedade anarco-sindicalista que vive isolada, num planeta árido, dos seus irmãos capitalistas e comunistas que habitam outro planeta. Em grande parte do livro, entre saltos constantes entre o passado e o futuro, fica patente a ideia de que a revolução é sempre necessária, seja num país capitalista e belicista, seja até num planeta anarco-sindicalista. A ideia da necessidade de uma revolução libertária numa anarquia pode parecer um pouco bizarra, mas é essa uma das grandes conquistas do protagonista do livro que desafia a “ordem” e o poder estabelecidos na sociedade anarco-sindicalista.

E mais não digo. Estas linhas apenas pretendem levantar a ponta do véu sobre este grande romance que utiliza a ficção científica para debater temas bastante reais. Uma saga e uma autora a continuar a ler.