Livro – “Os Despojados” de Ursula K. Le Guin

Há vários tipos de livros: livros que entretêm, livros de que gostamos, livros que divertem,  livros que marcam. Em diferentes fases da vida tive, talvez, 3 livros que me marcaram por várias razões. “Os Despojados” (The Dispossessed), de Ursula K. Le Guin (da saga Hainish Cycle), será provavelmente um destes livros (a prova do tempo confirmará ou não essa minha convicção).

Após ter, há pouco tempo, lido um livro sobre uma utopia (distopia?) futurista,Kirinyaga de Mike Resnick, resolvi procurar mais bons exemplos do género, em que a ficção científica se mistura com temas como a filosofia e a política. “Os Despojados” pareceram-me uma boa continuidade.  O primeiro terço do livro é penoso de se ler, facto que terá sido agravado por o ter lido na sua versão original, em inglês. A escrita da autora não é fácil, e o vocabulário é, por vezes, pouco comum. Para além disso, a autora opta por não nos explicar muito sobre o mundo sobre o qual escreve, sobre os personagens e os acontecimentos, apenas à medida que a história lentamente se desenrola começamos a ser elucidados. Se formos leitores persistentes, as restantes páginas do livro são um presente para a mente.

“Os Despojados”, apesar do rótulo de ficção científica, é um livro que trata de utopia, subversão, anarquia, revolução. O que mais me cativou foi a vivência de uma sociedade anarco-sindicalista que vive isolada, num planeta árido, dos seus irmãos capitalistas e comunistas que habitam outro planeta. Em grande parte do livro, entre saltos constantes entre o passado e o futuro, fica patente a ideia de que a revolução é sempre necessária, seja num país capitalista e belicista, seja até num planeta anarco-sindicalista. A ideia da necessidade de uma revolução libertária numa anarquia pode parecer um pouco bizarra, mas é essa uma das grandes conquistas do protagonista do livro que desafia a “ordem” e o poder estabelecidos na sociedade anarco-sindicalista.

E mais não digo. Estas linhas apenas pretendem levantar a ponta do véu sobre este grande romance que utiliza a ficção científica para debater temas bastante reais. Uma saga e uma autora a continuar a ler.

Calibre, Receitas, Feeds e leitores de ebooks

O Calibre tem a excelente funcionalidade de converter feeds para formatos que possam ser lidos em leitores de ebooks. Desde que comecei a utilizar o Kobo Touch para ler que cada vez mais gosto de ler tudo que posso nele. Para ler artigos um jornal ou um blogue é simples utilizar o Pocket para sincronizar uma versão epub com o Kobo, mas para edições inteiras online que possa interessar folhear, como um jornal em papel, a solução Pocket fica um pouco atrás, por enquanto.

O Calibre trás muitas “receitas”, como são chamadas as classes em Python que permitem o download dos artigos a partir da fonte RSS e respectiva conversão para epub, mas conteúdos portugueses são poucos: Público, DN, i e pouco mais. Resolvi, já há algum tempo começar a criar receitas. É bastante simples, mesmo sem conhecimentos de programação, embora para criar uma receita mais polida seja necessário editar um pouco de código e perceber a estrutura da classe. Felizmente a documentação é boa.

Deixo aqui algumas receitas: Expresso, Esquerda.net e Açoriano Oriental (especialmente para a malta dos Açores). A receita do AO é muito simples pois a própria fonte do jornal é pobre em conteúdos. Aceitam-se encomendas de receitas do teu conteúdo preferido :).

Abaixo está o código da receita do expresso. Podem fazer o download das 3 receitas aqui, depois basta no calibre ir a “Adicionar fonte de notícias personalizada”, clicar em “Mudar para o modo” avançado”, colar o código e clicar em “Actualizar receita”. Boas leituras :).

Expresso:

#!/usr/bin/env  python
__author__    = u'António Lima'
__license__   = 'GPL v3'
description   = u'Jornal semanário portugu\xeas - v0.1 (4 March 2014)'
__docformat__ = 'restructuredtext en'
'''
expresso.pt
'''
 
class Expresso(BasicNewsRecipe):
    title = u'Expresso'
    description = u'Jornal semanário português'
    cover_url = 'http://expresso.sapo.pt/images/ex_logo_xl.png'
    oldest_article = 7
    max_articles_per_feed = 100
    auto_cleanup = True
    category = 'News, politics, culture, economy, general interest'
    oldest_article = 2
    no_stylesheets = True
    encoding = 'latin1'
    use_embedded_content = False
    language = 'pt'
    remove_empty_feeds = True
    extra_css = ' body{font-family: Arial,Helvetica,sans-serif } img{margin-bottom: 0.4em} '
    remove_tags = [
        dict(name='aside', attrs={'id':'keywords'}),
        dict(name='aside', attrs={'class':'na-primeira-pagina'}),
        dict(name='div', attrs={'class':'blog-image-title'})
    ]
 
    feeds = [
        (u'Actualidade', u'http://expresso.sapo.pt/static/rss/atualidade--arquivo_23412.xml'),
        (u'Economia', u'http://expresso.sapo.pt/i/rss-large.gif'),
        (u'Desporto', u'http://expresso.sapo.pt/static/rss/desporto_23414.xml'),
        (u'Dossi\xeas', u'http://expresso.sapo.pt/static/rss/dossies_23415.xml'),
        (u'Opini\xe3o', u'http://expresso.sapo.pt/static/rss/opiniao_23424.xml'),
        (u'Sociedade', u'http://expresso.sapo.pt/static/rss/sociedade_25194.xml'),
        (u'Mercados', u'http://expresso.sapo.pt/static/rss/mercados_25511.xml')
    ]

Avaliação de desempenho: dividir para reinar

A competição sempre existiu nas sociedades humanas, entre indivíduos, famílias, cidades, nações. Se por vezes a competição pode até ser considerada benigna, o facto é que esta gera conflitos de vários graus que podem escalar em violência, quer seja entre indivíduos ou entre grupos de indivíduos, sendo a guerra a forma mais extrema de competição. Se a humanidade apenas competisse, há muito se teria auto-destruído. Foi e é a cooperação a todos os níveis que impediu e impede o ser humano de implodir e de desaparecer.

As sociedades capitalistas encontraram na competição (ou concorrência) entre empresas uma forma de tentar impedir a criação de monopólios. Recentemente, fomentaram a competição entre trabalhadores (do sector público e privado e entre empresas) para manter a classe desunida. Para aprofundar esse objectivo, o capitalismo, levou a competição entre trabalhadores ao extremo, fazendo com que estes se digladiem mesmo no interior das organização para as quais trabalham.

Esta competição interna, embora já existisse anteriormente, adquiriu especial relevância com o aparecimento das avaliações de desempenho que são comuns nas grandes organizações e que começam a ter um peso que irá tornar a vida nas empresas uma competição total: com outras empresas concorrentes, com os colegas, com os superiores hierárquicos. A avaliação de desempenho, com o seu carácter potencialmente arbitrário e injusto, pode definir aumentos salariais, e agora, com o patrocínio do governo PSD/CDS, será o 1º critério para o despedimento por extinção do posto de trabalho.

A “cooperação” é imposta pelas normas e procedimentos internos e não pela natural cooperação entre indivíduos que trabalham com vista a um mesmo fim. A cooperação é colocada em plano secundário, pois o interesse individual do aumento salarial e manutenção do posto de trabalho sobrepõe-se à cooperação. Os eventuais prejuízos para a empresa derivados da competição interna serão compensados pela desunião dos trabalhadores, tornando-os fáceis de controlar individualmente, escancarando a porta para todos os abusos de direitos sem que haja uma reação colectiva que trave a exploração.

Dividir para reinar é mais uma vez a óbvia táctica do capital e do governo PSD/CDS, que o serve. O primeiro passo para condenar essa táctica ao falhanço é a consciência da sua utilização. É tempo de lutar contra ela onde quer que estejamos e onde seja aplicada. É tempo de a sabotar, é tempo de união.

Publicado também no site do Bloco de Esquerda/Açores

Livro – Kirinyaga: A Fable of Utopia

Kirinyaga: A Fable of Utopia de Mike Resnick é uma história sobre a desilusão e recusa de um mundo, a criação de uma realidade utópica e a sua destruição aos olhos de um dos seus criadores.

Kirinyaga transporta-nos para a reflexão sobre as utopias, e o que estaremos dispostos a fazer para as atingir e manter, considerando que, tal como tantas coisas na vida, só nos apercebemos destas quando desaparecem. Li o original em Inglês e Mike Resnick tem uma escrita elegante, acessível e cativante. Consegue transportar-nos para um futuro distante em que as viagens interplanetárias são relativamente comuns mas em que há grupos de pessoas que escolheram viver como os seus antepassados. Um choque entre tecnologia futurista e a vida de uma tribo kenyana.

Somos convidados, em muitas das pequenas histórias que compõem Kirinyaga, a reflectir não só sobre utopia mas também sobre as leis, os costumes, as tradições e a ortodoxia.

Um livro de ficção científica que é muito mais do que o rótulo que ostenta. Para ler e reflectir.