Coisas da semana e Cavaco no seu “melhor”


Esta semana foi fértil em acontecimentos , alguns mais importantes do que outros mas poucas foram bons. A grande maioria merecia um post próprio mas vou destacar dois assuntos que me parecem sintomáticos da situação que vivemos no país.

Como é óbvio, a descida do rating da dívida pública portuguesa foi a notícia da semana. Não era imprevisível. É conhecida e criticada a actuação da agências de rating por muita gente em Portugal há bem mais de um ano. Quando começaram a descer o rating português não havia razões para isso. Agora, apesar da classificação da Moodys ser considerada por todos injusta, há certamente mais riscos do país entrar em incumprimento. Esse risco sobe com a austeridade, com os resgates, com juros impagáveis e com a recessão. Agora, aqueles que defendiam o mercado, qual deus que não pode ser contrariado, vêm agora criticar as agências que são parte integrante desse mercado, criticando-o implicitamente. Parece que, de repente, todos viraram à esquerda, um coro de perigosos esquerdistas. Há uns meses era apenas Sócrates a fonte de todo o mal, agora parece que os mercados têm um pouquinho de culpa. Mas vamos continuar com a austeridade, pode ser que tenham piedade de nós, se formos bons alunos.

O Presidente também juntou-se ao coro, com um ar muito indignado chamou “escândalo” à actuação da Moodys. Vale a pena ver o vídeo. O que Cavaco se esqueceu foi que existem arquivos e que nas suas declarações de há um ano diz que “não vale a pena recriminar as agências de rating”. Interessante mudança de opinião. E como sempre, reafirmou a sua omnisciência chamando ignorantes aos que o criticam por ter mudado de opinião e ainda os mandou estudar.

A outra notícia que quero destacar é uma declaração de… Cavaco Silva, de novo. Que activo que anda o Presidente, a preparar terreno para as medidas do governo. Diz o Presidente que “Em democracia nenhum cidadão pode ser excluído dos cuidados de saúde por causa dos seus rendimentos. Por isso, podemos pedir às misericórdias que prestem esse cuidados se fizerem com melhor qualidade e eficiência“. E quem é que paga às misericórdias? Como se sabe, não há almoços grátis. Alguém terá que pagar às misericórdias: ou o utente (ou devo dizer cliente) ou o Estado. De qualquer das formas, quem paga somos nós. Se quem paga somos nós qual a razão de delegar nas misericórdias o que pode e deve, segundo a constituição, ser feito no sector público? Pura e simplesmente para tornar a saúde um negócio.

A inspiração de Cavaco não acabou: “cidadãos com diferentes rendimentos podem eventualmente dar diferentes contribuições para a distribuição dos encargos com a Saúde” O prof. Cavaco adora chamar ignorantes aos portugueses. Os cidadãos com maiores rendimentos JÁ contribuem mais para a Saúde, para a Educação e para todos os serviços públicos. É essa redistribuição de rendimentos que permite que tenhamos um sistema de saúde tendencialmente gratuito (deveria ser totalmente gratuito).

Vale a pena ouvir as palavras de António Arnaut sobre este assunto.


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