O Crato, a transmissão e a carga horária

É com bastante atenção que tenho ouvido o novo ministro da Educação, Nuno Crato, a quem quase chamaria de rock star do governo, tal é a sua popularidade. Não posso concordar com muito do que o ministro diz, exceptuando algumas coisas bastante óbvias e consensuais como a necessidade de uma escola exigente e com mais disciplina.

No entanto, esperei até hoje para escrever qualquer coisa sobre novo ministro, principalmente sobre a primeira medida que foi precisamente o aumento da carga horária de Português e Matemática. Sendo estas as disciplinas que já têm maior carga horária, será que o aumento desta será directamente proporcional à melhoria dos resultados? Duvido muito. É preciso perceber que estamos a falar de pessoas, bastante jovens por sinal, e que o “martelar” da mesma disciplina, com o mesmo professor, pode criar ainda mais aversão à disciplina em questão.

Queremos bons alunos a português e matemática, e o resto? A literacia não se faz apenas de português e matemática, aprender a pensar e a questionar não pode ser só feito nas salas de português e matemática. Houve tempos em que se ia para a escola aprender a ler e escrever e a fazer contas, certamente que não é a isso que queremos regressar, trocando a 4ª classe pelo 9º ano.

Nuno Crato, numa reacção ao construtivismo na educação, afirma que a escola deve assegurar a transmissão de conhecimentos. Devo dizer que assusta-me que o ministro da educação tenha uma visão tão redutora da escola. O que leio dessas palavras é que pretende-se regressar à visão da escola e do professor como fontes do conhecimento que deverá ser transmitido ao aluno, como se houvesse uma ligação directa entre a cabeça do professor e a do aluno, actor passivo que é esculpido pelo professor.


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