O silêncio da campanha eleitoral – Açores
Quem anda atento à campanha eleitoral para as eleições regionais nos Açores tem, decerto, notado uma quase ausência de símbolos partidários na comunicação de alguns partidos, talvez na tentativa de se afastarem do partido nacional. No entanto, cartazes sem símbolos partidários não apagam o memorando que os partidos de Berta Cabral, Vasco Cordeiro e Artur Lima assinaram na República e que defendem, com mais ou menos convicção ou com uma abstenção mais ou menos violenta. Mesmo que PS, PSD e CDS afirmem solenemente que não querem mais austeridade nos Açores, os partidos da troika não parecem preocupar-se com as oportunidades perdidas para agirem de acordo com esse discurso de ocasião em relação às políticas do governo da República.
O PS/Açores, por exemplo, disse ser contra o novo Código de Trabalho, criado pelo governo PSD/CDS com a bênção da sacrossanta troika, mas permitiu que este fosse aplicado nos Açores, votando contra a proposta do BE/Açores que proponha a manutenção, nos Açores, do Código do Trabalho de 2009. O PS juntou-se à direita e condenou os trabalhadores açorianos a serem mais pobres, a terem menos proteção no emprego e a trabalhar mais por menos dinheiro. Ações, ou omissões, como esta põem a nu a vacuidade do discurso praticado por PS, PSD e CDS. Defender os Açores é defender quem aqui trabalha, quem já trabalhou uma vida, quem luta todos os dias por uma vida mais digna e que encontra nas políticas da troika uma tormenta que parece não ter fim à vista.
O PSD de Berta Cabral promete, caso vença as eleições, cortes na despesa, redução de deputados e diminuição do tamanho do governo. Este discurso parece familiar. Por vezes a memória pode ser curta, mas passado pouco mais de um ano de Passos Coelho ter eleito as gorduras do Estado como principal inimigo e termos descoberto que essas gorduras eram salários e pensões, a mandatária de Passos Coelho nos Açores espera que os/as açorianos/as já o tenham esquecido.
Os açorianos/as já conhecem a palavra dos dirigentes do PSD e os perigos do seu discurso moralista e populista. Infelizmente, estamos todos a pagar muito caro, quer seja com impostos, com subsídios de férias e de natal, com reformas e pensões, com o próprio emprego, com o subsídio de desemprego e com o seu rendimento social de inserção as falsas promessas de um candidato do PSD que, tal como Berta Cabral, aparentava ser pessoa séria. Não podemos adivinhar o futuro, mas podemos analisar o passado e o presente e evitar uma dose dupla de logros.
O que temos visto de PS e PSD é uma campanha que nada diz e nada esclarece sobre os principais problemas dos açorianos/as e sobre as grandes decisões que serão tomadas, muito em breve, como é o caso da revisão da Lei de Finanças Regionais (LFR). Onde está a resposta destes (e de outros partidos, já agora) à carta enviada pelo BE/Açores a todos os partidos com assento parlamentar para que todos se sentem à mesma mesa tornar possível uma posição unânime de defesa da LFR? Até aqui, apenas silêncio.
Não são discursos vazios que irão resolver os problemas dos Açores. O que realmente conta são as as propostas concretas e as ações que destas resultam. Só a luta contra a política da troika, quer seja nos Açores ou em todo o país, pode defender os/as açorianos/as do avança implacável do desemprego, das desigualdades e da pobreza numa região já tão desigual. Esta luta faz-se à esquerda e nos Açores o Bloco de Esquerda tem liderado e vai continuar a liderar o combate à troika e àqueles que implementam, defendem ou compactuam com as suas políticas.
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