O fim da União Europeia

Nota prévia:

Este texto é uma espécie de desabafo, uma análise de linhas soltas e reflexões sobre a crise da Europa. Não é uma análise sobre o dia de hoje, sobre os últimos 5 meses, sobre a Grécia ou sobre Portugal. Mas também o é. Não esperem encontrar uma crónica ou artigo de opinião articulado e estruturado, como tem sido hábito no meu blogue ultimamente. É demasiado difícil fazê-lo neste momento sobre este tema. É mais para mim do que para qualquer outro.

Ainda ponderei acrescentar ao título deste texto o seguinte complemento “ou o seu renascimento”.  Desisti. Depois destes anos do ajustamento das nossas vidas, da grande maioria, para que poucos enriqueçam cada vez mais e o mercado seja o dogma que tudo domina nas relações económicas, sociais e  políticas, depois destes cinco meses de um governo que decidiu, na Grécia, enfrentar a ideologia da ausência de alternativa, concluo que a União Europeia morreu enquanto projecto político que valorize a solidariedade entre povos.

Hoje o governo Grego do SYRIZA, depois de ter mobilizado o seu povo para uma luta desigual contra uma Europa autocrática e autoritária, entregou uma proposta para assistência financeira com algumas medidas  contra as quais lutaram anos a fio. Os únicos benefícios que poderão daí retirar para a Grécia são uma reestruturação da impagável dívida pública e a sua manutenção na zona euro, em detrimento de um passo no escuro que uma saída da moeda única representa.

Ninguém sabe se a Europa aceitará esta proposta. Se aceitar, não será por vontade própria mas sim devido às pressões que sofreram de potências com ainda mais poder do que a Europa. Não duvido que esta Europa estava preparada para deixar cair a Grécia na incerteza da saída da moeda única. Saída que não existe nos tratados, não é legal mas aconteceria ou acontecerá. Para o poder absoluto as leis não se aplicam. Se os reis obtinham o seu poder absoluto e legitimidade a partir dos deuses que a concediam, já que as leis do mundo não se aplicam a deuses. A Alemanha, neste caso  obtém o seu poder absoluto no controlo absoluto de uma moeda e de uma economia. A Europa da Alemanha pode então violar qualquer lei ou tratado porque simplesmente pode fazê-lo, não existe uma maioria, nem sequem minoria que a tente impedir,

A Europa da solidariedade morreu. Morreu porque os seus líderes, ajudados pelos media, envenenaram os seus povos com ideias xenófobas, com mitos, desconfianças e invejas. A procura da convergência desapareceu da Europa. Agora somos devedores ou credores e a dívida é vista numa perspectiva moralista em que os devedores são necessariamente pecadores, maus gestores, abusadores, pobres e esbanjadores e os credores são justos, benevolentes, poupados, e moralmente superiores. Os credores têm portanto toda legitimidade moral, claro está, de julgar os devedores, de os ensinar o caminho dos justos e, se não o seguirem, de gerir as sua vida para que não se desviem de um caminho pobre mas honrado e sobretudo não falhando com os seus compromissos.

Uma Europa destas está condenada a implodir mais cedo do que tarde. Se esta semana não começar a sua implosão, será apenas um adiamento. Só uma refundação democrática da Europa a pode salvar de si mesma.

A crise actual não é da Grécia, é da Europa. Uma dita União que não consegue, perante uma crise de dívidas soberanas, proteger os seus países mais frágeis da especulação dos mercados financeiros, preferindo aproveitar essa crise para impor a política única da austeridade aos países sob ataque para os controlar como marionetas, é um projecto solidário falhado que de democracia não tem nada, se é que alguma vez teve mais do que símbolos. Perante o falhanço incontornável da austeridade como política económica, a Alemanha, que mais do que ninguém deveria conhecer as consequências dessa política pois foram políticas de austeridade que levaram às ascensão do partido nazi, resolveu tornar a Grécia no mau exemplo, no mau aluno, e Portugal, Irlanda e Espanha, nos bons alunos. Para quê um mau aluno? Para que alguém pareça bem, outro tem de estar pior.

Hoje, o inominável terrorista ministro das finanças da Alemanha pondera se expulsa ou não a Grécia da zona euro. Possivelmente já o decidiu há muito e aguarda apenas que tudo esteja consumado  e possa fechar a cortina. Dirá que era necessário remover um cancro que ameaçava a zona euro. Para Schäuble o perigo é a democracia e a vontade popular que ameaçam o seu poder absoluto. Se aceitar as propostas gregas, dificilmente será um bom acordo. Será, quanto muito, aceitável dado o nível a que chegou a chantagem sobre o povo grego. Schäuble e Merckl sofrerão uma pequena derrota, mais pequena do que a simbólica de domingo passado. A Grécia sobreviverá para lutar mais um dia.

 

 

 

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