As vitórias da Esquerda e as revelações da Direita

Passaram-se duas semanas das eleições, no dia em que escrevo. Ainda não sabemos que governo teremos: se um governo das direitas que se uniram antes das eleições e pretendem continuar no mesmo caminho de empobrecimento em nome da “consolidação orçamental” ou um governo que possa afastar-se desse caminho de flagelação do país, protegendo o emprego, salários e pensões.

O desfecho do processo eleitoral é fundamental para o futuro do país mas, na verdade, estas eleições tiveram já como consequência uma mudança radical na política portuguesa. Se há alguns meses Portugal era visto como um caso de estudo, pelo fraco crescimento das oposições anti-austeridade comparativamente a outros países sujeitos a duras políticas de austeridade, hoje é claro que este crescimento existe e revolucionou o quadro político retirando à Direita unida 700.000 votos e demolindo a concepção de “arco da governação” (PS, PSD e CDS) que teve o pior resultado desde 1985.

Mas esta é apenas uma revolução de números que, na ausência de suporte político, é irrelevante para as mudanças que são necessárias e possíveis de imediato e, mais importante, a médio e longo prazo. E o que podemos dizer sobre as mudanças de política? Ainda não há, obviamente, qualquer mudança de política mas há debate e discussão política. Essa discussão política, para além dos inúmeros comentários sobre as negociações em curso, centra-se agora não em políticas de austeridade a implementar a curto prazo mas na reversão dessas políticas, na devolução de salários, na defesa das pensões, na protecção do emprego.
Hoje é possível reverter políticas de austeridade porque a Esquerda conseguiu, pela primeira vez em muitas décadas, ter uma votação suficiente para ter um poder decisivo sobre as políticas que serão aplicadas nos próximos tempos e para isso muito contribuiu o Bloco de Esquerda.

A votação de BE e CDU e a possibilidade de inviabilização de um governo de Direita, com a abertura à negociação com o PS, revelou também a arma escolhida pela Direita. De acusações risíveis de Golpe de Estado, quando tudo o que está a ser negociado é perfeitamente constitucional, ao aceno com os papões do PREC e até à tentativa ridícula de noticiar uma chantagem dos mercados. Perante a possibilidade de perder o poder a Direita tenta criar e espalhar o medo da Esquerda. Ficamos também a conhecer melhor a base social de PSD e CDS. O medo da perda de poder fez a Direita mobilizar todo o seu poder mediático que domina quase sem excepção os media portugueses. Fazer com que o adversário se revele sem disfarces é também uma vitória.

A Esquerda, depois de anos a resistir, está agora a tentar recuperar direitos perdidos e isso é também uma vitória de uma Esquerda que, nos anos mais difíceis, perante algumas derrotas e desmobilização, nunca desistiu de lutar.

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