Transporte coletivo de passageiros, o Esquecido

Um dos assuntos que mais tinta faz correr nos Açores são os transportes. Os transportes aéreos são notícia dia sim, dia sim. Os transportes marítimos caminham no mesmo sentido. O parente pobre do setor é o transporte coletivo terrestre de passageiros. Praticamente ninguém dá por ele na imprensa, raramente ocorrem mudanças de monta e quase nunca existem reclamações (porque será?). E assim é, há várias décadas.

Em São Miguel, a grande novidade dos últimos anos terá sido, provavelmente, o aparecimento de um serviço de transporte urbano, o mini-bus de Ponta Delgada. Este ultimamente é notícia de 6 em 6 meses com a celebração de novos contratos de concessão. Desta vez a concessão parece ter sido, finalmente, atribuída num caro concurso público. Depois da novidade, este foi um serviço que pouco evoluiu no tempo e que, tal como o serviço interurbano, não é suficientemente funcional para ser apelativo para quem não depende dele. Sim, porque os transportes públicos não podem ser utilizados apenas para quem não tem alternativa, devem ser apresentar eficiência, qualidade e racionalidade para levar a que todos/as sejam potenciais utilizadores.

Em S. Miguel, por exemplo, continuamos com um sistema de transporte coletivo interurbano anacrónico, com horários e rotas que se mantêm com poucas alterações há décadas, com a ilha dividida artificialmente por três concessionários que fazem as suas carreiras com fraca articulação entre si e com pouca adaptação de horários à realidade atual. Ponta Delgada é utilizada como um hub, com quase todas as rotas a terem a principal cidade de S. Miguel como ponto de origem ou destino final. Este facto leva a que se torne moroso e difícil viajar entre as várias cidades e vilas de São Miguel (para não falar de freguesias), pois não existem ligações diretas entre cidades/vilas que se encontrem em zonas exploradas por diferentes concessionários. Por exemplo, não existe uma ligação direta entre Ribeira Grande e Lagoa, duas cidades por sinal bastante próximas geograficamente. É obrigatório “picar o ponto” em Ponta Delgada e comprar mais um bilhete. Não existe ligação direta entre Vila Franca e Ribeira Grande. Não existe ligação direta entre Lagoa e Rabo de Peixe nem entre Capelas e Ribeira Grande, estas últimas localidades extremamente próximas mas que a estagnação e total desinteresse do Governo Regional pelo transporte coletivo terrestre condena a um afastamento artificial.

Focando-nos em Ponta Delgada e na sua utilização como hub, vale a pena lembrar um dos mais notórios sinais de uma total despreocupação com a qualidade dos transportes, com o bem-estar dos utilizadores e munícipes e até com a adjetivação “smart” que a Câmara Municipal de Ponta Delgada atribuí à cidade: a ausência de terminais de camionagem em Ponta Delgada, a maior cidade dos Açores. Corrijo: existe um gigantesco terminal que é a avenida Infante Dom Henrique. Esta, devido ao intenso tráfego de veículos pesados, torna-se um local pouco ou nada agradável. De acordo com um estudo encomendado pelo próprio município em 2014, a frequência de passagem de autocarros na avenida marginal pode atingir um autocarro a cada dois minutos! Para os utilizadores dos transportes públicos a situação não é melhor: frio, chuva, sol e desconforto. Os muros e bancos de jardim da avenida são local de espera. Porque se tratam assim estes utilizadores se nenhum outro serviço público é tão mal servido?

A construção de terminais funcionais e confortáveis em pontos chave da periferia da cidade para o transporte interurbano e uma prometida, mas não cumprida interligação com o transporte urbano  (tanto pelo Governo Regional como pelo Município) são fundamentais para tirar o transporte coletivo de passageiros dos anos 70 e dar-lhe um pouco de modernidade e funcionalidade. É essencial tornar o transporte coletivo um transporte para todos/as. Só assim este poderá adquirir a massa crítica que permite a exigência de um serviço cada vez mais funcional, eficiente e ambiental e economicamente sustentável.

#açores#são miguel#transporte colectivo