Uma pedrada no charco

A política açoriana não é conhecida por grandes mudanças. Em 40 anos de autonomia, dois partidos formaram governo: 20 anos cada um de forma consecutiva e apenas 4 presidentes do governo regional. A maioria dos governos regionais foram de maioria absoluta e, neste momento, há 20 anos que governa o PS, 16 deles com maioria absoluta. Qualquer pessoa que, não conhecendo os Açores, as idiossincrasias da sua política e ao ler a anterior resenha histórica, tenderia a intuir que estamos hoje num período de eminente mudança pelo longo período de governo PS. Há de facto sinais de mudança mas talvez não a mais óbvia.

À direita, nada de novo: é clara a extrema dificuldade que o PSD tem tido ao longo dos anos em se afirmar como alternativa ao PS. Duvido que isso se deva aos seus presidentes, porque o partido já testou inúmeros. A ausência de um programa alternativo credível e a ocupação quase completa, pelo PS, do centrão político e dos grandes interesses nos Açores, deixou o maior partido da oposição numa numa travessia do deserto em que o regresso ao poder parece não passar de uma miragem.

Ainda à direita, o CDS, que tem como programa a guerrilha bairrista e o fomento de rivalidades e pequenos ódios, procura dessa forma manter os seus bastiões de poder, abdicando com isso de ser um partido regional.

O PS no poder, um PSD dormente e um CDS agitador de rivalidades bairristas constituem o status quo açoriano. Para uma grande maioria das pessoas este estado de coisas não lhes trás qualquer benefício, garante-lhes aquilo que têm como certo: salários baixos, programas ocupacionais, desemprego elevado, o preço baixo do leite ou o quinhão de miséria, a dificuldade no acesso à saúde, as dificuldades de deslocação e um profundo sentimento de que existe algo muito errado na sociedade açoriana: uma profunda desigualdade que quem detém o poder político e económico não quer combater de forma a manter os seus privilégios.

Quando o Bloco de Esquerda chegou à Assembleia Regional em 2008 foi uma lufada de ar fresco. Novas ideias, denúncias sem medo e sem meias palavras, propostas arrojadas para mudanças reais. Desde que existe nos Açores o Bloco de Esquerda construiu nos Açores um património político e conquistou a confiança de muitos açorianos/as. As propostas do Bloco são reconhecidas e algumas fizeram um caminho extraordinariamente difícil, começando por serem altamente improváveis a serem defendidas por quase todas as forças políticas nos Açores, como é o caso da proposta do Centro Internacional para as Ciências do Mar que está na agenda como sendo um projeto estruturante para o futuro dos Açores.

Mas esta é apenas uma ideia entre muitas apresentadas ao longo dos anos. Para que mais propostas do Bloco de Esquerda façam um caminho que as torne um dia uma realidade, é condição fundamental que o Bloco cresça eleitoralmente, adquirindo uma expressão eleitoral adequado ao seu reconhecimento na sociedade açoriana e ganhando a força necessária para fazer aprovar as suas propostas. De outra forma, as ideias do Bloco de Esquerda, por mais válidas que sejam, embaterão quase todas no muro da prepotência da maioria absoluta do PS e dos grandes interesses que tudo farão para manter tudo como está.

O crescimento do Bloco de Esquerda nas próximas eleições é a pedrada no charco que pode agitar as águas e impelir mudanças que, de uma vez por todas, tornem os Açores uma sociedade mais justa e desenvolvida.

 

Originalmente publicado no jornal Diário dos Açores

Também publicado em acores.bloco.org

 

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