Devin Nunes, Representante da República nos Açores

O congressista lusodescendente Devin Nunes, ao longo dos últimos anos, manobrou politicamente contra a redução do contingente norte-americano na base das Lajes. Destacou-se nessa ação com propostas que nunca viram a luz do dia mas que deram algumas (falsas) esperanças a quem esperava que o redução da presença militar norte-americana pudesse ser travada. Da transformação das Lajes num posto avançado do AFRICOM – Comando dos EUA para África – à instalação de um centro de informações que, acabou por ir para Croughton, na Inglaterra. Nenhuma destas propostas passou de uma miragem e a base das Lajes foi, durante anos, uma arma de arremesso político nas mãos de Nunes e do Partido Republicano, contra a administração Obama, e uma forma de Nunes ganhar credibilidade em Portugal e mais particularmente nos Açores. E a verdade é que ganhou, pelo menos, entre quem detém o poder. Se não, vejamos:

Duarte Freitas, presidente do PSD/Açores, em 2013, apelidou Nunes de “grande amigo dos Açores”. Sérgio Ávila, vice-presidente do Governo Regional, afirmou, em 2015, que Nunes era “um dos pilares mais fortes” da “coligação de amigos dos Açores”; Vasco Cordeiro, presidente do Governo Regional dos Açores, também o incluiu na  “coligação de amigos dos Açores” e Cavaco Silva a atribuição-o o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Com a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas, Devin Nunes integrou a equipa de transição de Trump, tendo sido um dos seus mais fieis apoiantes, durante a campanha que, nem os piores momentos de Trump, fizeram vacilar, o que diz muito deste congressista.

Recentemente, Nunes, envolveu-se num cenário de filme de espionagem de segunda categoria, utilizando o cargo de Presidente da Comissão de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes para dar suporte às inéditas acusações de espionagem que Trump lançou ao seu antecessor. A Comissão de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes investiga neste momento as eventuais ligações entre Trump e Putin mas isso não foi impedimento para o que se segue.

Nunes protagonizou um dos episódios mais rocambolescos destes singulares primeiros meses da administração Trump – afirmou que tinha recebido, de fonte anónima, documentos que provariam as escutas de Obama a Trump, uma revelação bombástica, mas nunca os terá mostrado aos colegas de comissão. Mais tarde afirmou que os documentos lhe tinham sido entregues na Casa Branca, a quem Devin Nunes era suposto estar a investigar, à margem dos canais oficiais e sem o conhecimento dos restantes membros da comissão. Até John McCain e Lindsay Graham, senadores do Partido Republicano pediram o seu afastamento da Comissão a que preside. No início de abril, Nunes afastou-se da investigação à interferência da Rússia nas eleições dos EUA do ano passado.

Com a agenda mais desafogada, Nunes rumou a Portugal poucos dias após ter decorrido na ilha Terceira o congresso Atlantic Interactions, no âmbito do projeto do Governo da República Azores International Research (AIR) Center. O congressista trazia talking points que repetiu nas várias entrevistas concedidas. Nestas entrevistas Nunes proferiu frases únicas, tais como, qualquer estrangeiro perto da Base das Lajes não é boa ideia, e, falando do AIR Center, respondeu ao Expresso que esse é problemático. Não estou interessado em que algum governo estrangeiro adversário tenha acesso a locais  perto dos EUA. Veio também informar-nos que o Governo Português vai mesmo aumentar a despesa militar até 2% do PIB.

A partir destas declarações e tendo em conta as recentes posições de Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros, quanto à necessidade de manter a relação com os EUA a todo o custo, o AIR Center é um não-projeto e morreu antes de sequer nascer. Devin, representante da república, já o vetou politicamente.

 

 

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