A sustentabilidade do turismo e os seus trabalhadores

Comemorou-se ontem mais um 1.º de maio, dia em que, para além de se invocarem as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras ao longo dos anos, se afirmam reivindicações da atualidade: melhores condições de trabalho, mais salário, progressões na carreira, estabilidade laboral, o fim da precariedade, entre outras.

Foi neste 1.º de maio que, o Governo Regional, pela voz da Secretária Regional da tutela, anunciou que irá certificar os Açores como “destino de turismo sustentável” através de uma organização designada por Global Sustainable Tourism Council. Nesse discurso, como sempre que o Governo Regional fala de turismo, há uma palavra, cuja ausência é ensurdecedora: “trabalhadores”.

Quer o Governo mostrar aos visitantes que cumpre um conjunto de requisitos a vários níveis, como a gestão, o ambiente e os benefícios para as comunidades de acolhimento e em que o trabalho é apenas uma mera nota de rodapé. A julgar por alguns dos destinos certificados por esta organização, fico com sérias dúvidas sobre se as questões laborais são uma preocupação central da sua certificação.

Este setor, até pela sua forte sazonalidade, é o campeão da precariedade e da instabilidade. Mas o Governo Regional não vê problemas e, no 1.º de maio, não tem uma medida, nem sequer uma palavra sobre os problemas laborais neste setor.

O Governo Regional do PS tem apostado as fichas todas no turismo. Mas esta aposta é profundamente desequilibrada e esquece sempre quem, todos os dias, faz o setor funcionar tantas vezes sem um contrato efetivo, com horas intermináveis e folgas eternamente adiadas.

Um governo que se preocupa com a “crescente consciência internacional dos consumidores” tem o dever de, antes disso, se preocupar com a crescente exploração dos trabalhadores do turismo.

Este é um setor altamente subsidiado. Basta analisar os apoios atribuídos, pelo Governo, ao setor através dos programas de incentivos. São, para além disso, vários os investimentos classificados pelo Governo como projetos de interesse regional, concedendo benefícios suplementares aos promotores dos projetos. Sendo este setor altamente subsidiado pela Região, o mínimo que se pode exigir é que seja um setor onde as relações laborais sejam exemplares.

Mas na visão do Governo Regional, a sustentabilidade do turismo passa por quase tudo, menos pela sustentabilidade das vidas de quem nele trabalha.

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